quarta-feira, 10 de junho de 2026

Entre a Fragilidade e a Gratidão


No domingo, a febre persistia. Depois de ter desvalorizado uma dor no peito, convencido de que seria apenas uma dor muscular, decidi, já noite dentro, dirigir-me às urgências do hospital.

Seguiram-se exames, diagnósticos preliminares, mais exames... até surgir o veredito final, um problema grave ao nível do coração que exigia internamento imediato e transferência urgente para os cuidados intensivos.

Foi um momento de enorme pânico. Não apenas para mim, mas também para a Miducha e para a Teresinha, que me acompanhavam naquele momento tão difícil.

Já de madrugada, fui internado na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital da Cuf.

O ambiente era assustador, pouca luz, máquinas por todo o lado, fios, monitores, oxigénio. Para quem estava plenamente consciente, tudo aquilo parecia saído de outra realidade. Nessa noite, o sono não apareceu. À minha volta, médicos e enfermeiros sucediam-se junto à cama, enquanto a preocupação se instalava de forma inevitável.

Passei três dias nos cuidados intensivos.

Foram dias de reflexão profunda. Houve momentos de angústia e muitas lágrimas, mas também momentos de grande aprendizagem. Percebi que tenho muitos amigos, tendo recebido manifestações de carinho de inúmeras pessoas, naturalmente da Moita, mas também de vários pontos do país, de Valença a Faro. Saber que tantas pessoas se preocupavam comigo deu-me uma força extraordinária.

Felizmente, nunca senti falta de ar. Esse pequeno sinal positivo ajudava-me a manter a esperança, mesmo quando a situação clínica permanecia estável, mas sem melhorias significativas.

Confinado a uma cama, com movimentos limitados, mas perfeitamente consciente, vivi de perto a intensidade daquele ambiente onde os sons dos monitores se misturam com a dedicação constante dos profissionais de saúde.

Conheci pessoas extraordinárias. Desde os auxiliares, e aqui deixo um agradecimento especial ao Daniel, que sonha um dia ser enfermeiro, aos enfermeiros, sem exceção, e aos médicos que me acompanharam.

Permitam-me destacar o coordenador dos cuidados intensivos, o Dr. Paulo Gomes.

Recordo um episódio simples, mas profundamente humano. Numa das conversas, disse-lhe:

— Doutor, estou com muitas dores de cabeça. Parece-me que me está a faltar café...

Poucos minutos depois, estava a beber um café expresso. Um gesto simples, mas que naquele momento teve um significado enorme.

Passei vários dias naquele espaço exigente, com visitas muito restritas e breves. Foi difícil.

Mas nunca me senti sozinho.

A minha Miducha, as minhas filhas, o meu genro, o meu filho, que surgiu de surpresa, foram um suporte emocional firme. Se fisicamente atravessava uma prova difícil, emocionalmente sentia-me profundamente amparado.

 

A Vivência

Estas experiências recordam-nos algo que tantas vezes esquecemos, a fragilidade humana.

Basta um instante para percebermos como tudo pode mudar.

Nestes dias difíceis vivi, senti e testemunhei a grandeza do ser humano. A competência, a dedicação e a entrega daqueles profissionais de saúde merecem toda a minha admiração. Da mesma forma, senti a força do amor e da amizade, algo que jamais esquecerei e que dificilmente conseguirei agradecer como seria minha obrigação.

As correntes de oração que se criaram, as mensagens constantes de incentivo, as demonstrações de carinho e a presença dos amigos tocaram-me profundamente. Mais do que me emocionar, tudo isso me fortaleceu. Nunca me deixou cair.

Houve uma frase que me dedicaram e que guardarei para sempre:

"Quando estamos na mão de Deus, nada tememos."

O amor da família foi, naturalmente, um pilar essencial, sem ele, não sei se teria encontrado a mesma força. O amor dos amigos e a fé em Deus foram igualmente o meu suporte nos momentos mais difíceis.

Hoje, olhando para trás, percebo que estas provações também têm a capacidade de nos purificar, de nos ajudar a distinguir o essencial do acessório e de nos lembrar do verdadeiro valor da vida.

A todos os que rezaram por mim, que me enviaram uma mensagem, que se preocuparam, que estiveram presentes de alguma forma, deixo a minha mais profunda gratidão.

Muito, muito obrigado.

 

Entre a Fragilidade e a Gratidão

No domingo, a febre persistia. Depois de ter desvalorizado uma dor no peito, convencido de que seria apenas uma dor muscular, decidi, já noi...