No domingo, a febre persistia. Depois de ter desvalorizado uma dor no peito, convencido de que seria apenas uma dor muscular, decidi, já noite dentro, dirigir-me às urgências do hospital.
Seguiram-se exames, diagnósticos preliminares, mais
exames... até surgir o veredito final, um problema grave ao nível do coração
que exigia internamento imediato e transferência urgente para os cuidados
intensivos.
Foi um momento de enorme pânico. Não apenas para mim, mas
também para a Miducha e para a Teresinha, que me acompanhavam naquele momento
tão difícil.
Já de madrugada, fui internado na Unidade de Cuidados
Intensivos do Hospital da Cuf.
O ambiente era assustador, pouca luz, máquinas por todo o
lado, fios, monitores, oxigénio. Para quem estava plenamente consciente, tudo
aquilo parecia saído de outra realidade. Nessa noite, o sono não apareceu. À
minha volta, médicos e enfermeiros sucediam-se junto à cama, enquanto a preocupação
se instalava de forma inevitável.
Passei três dias nos cuidados intensivos.
Foram dias de reflexão profunda. Houve momentos de angústia
e muitas lágrimas, mas também momentos de grande aprendizagem. Percebi que
tenho muitos amigos, tendo recebido manifestações de carinho de inúmeras
pessoas, naturalmente da Moita, mas também de vários pontos do país, de Valença
a Faro. Saber que tantas pessoas se preocupavam comigo deu-me uma força
extraordinária.
Felizmente, nunca senti falta de ar. Esse pequeno sinal
positivo ajudava-me a manter a esperança, mesmo quando a situação clínica
permanecia estável, mas sem melhorias significativas.
Confinado a uma cama, com movimentos limitados, mas
perfeitamente consciente, vivi de perto a intensidade daquele ambiente onde os
sons dos monitores se misturam com a dedicação constante dos profissionais de
saúde.
Conheci pessoas extraordinárias. Desde os auxiliares, e aqui
deixo um agradecimento especial ao Daniel, que sonha um dia ser enfermeiro, aos
enfermeiros, sem exceção, e aos médicos que me acompanharam.
Permitam-me destacar o coordenador dos cuidados intensivos,
o Dr. Paulo Gomes.
Recordo um episódio simples, mas profundamente humano. Numa
das conversas, disse-lhe:
— Doutor, estou com muitas dores de cabeça. Parece-me que me
está a faltar café...
Poucos minutos depois, estava a beber um café expresso. Um
gesto simples, mas que naquele momento teve um significado enorme.
Passei vários dias naquele espaço exigente, com visitas
muito restritas e breves. Foi difícil.
Mas nunca me senti sozinho.
A minha Miducha, as minhas filhas, o meu genro, o meu filho,
que surgiu de surpresa, foram um suporte emocional firme. Se fisicamente
atravessava uma prova difícil, emocionalmente sentia-me profundamente amparado.
A Vivência
Estas experiências recordam-nos algo que tantas vezes
esquecemos, a fragilidade humana.
Basta um instante para percebermos como tudo pode mudar.
Nestes dias difíceis vivi, senti e testemunhei a grandeza do
ser humano. A competência, a dedicação e a entrega daqueles profissionais de
saúde merecem toda a minha admiração. Da mesma forma, senti a força do amor e
da amizade, algo que jamais esquecerei e que dificilmente conseguirei agradecer
como seria minha obrigação.
As correntes de oração que se criaram, as mensagens
constantes de incentivo, as demonstrações de carinho e a presença dos amigos
tocaram-me profundamente. Mais do que me emocionar, tudo isso me fortaleceu.
Nunca me deixou cair.
Houve uma frase que me dedicaram e que guardarei para
sempre:
"Quando estamos na mão de Deus, nada tememos."
O amor da família foi, naturalmente, um pilar essencial, sem
ele, não sei se teria encontrado a mesma força. O amor dos amigos e a fé em
Deus foram igualmente o meu suporte nos momentos mais difíceis.
Hoje, olhando para trás, percebo que estas provações também
têm a capacidade de nos purificar, de nos ajudar a distinguir o essencial do
acessório e de nos lembrar do verdadeiro valor da vida.
A todos os que rezaram por mim, que me enviaram uma
mensagem, que se preocuparam, que estiveram presentes de alguma forma, deixo a
minha mais profunda gratidão.
Muito, muito obrigado.
