Hoje está a ser um dia emocionalmente difícil cá em casa. Para mim, para a Miducha e, acredito, também para a Teresinha, embora ela enfrente esta nova etapa com a independência e determinação que sempre a caracterizaram.
A nossa Teresinha partiu hoje para uma aventura que será,
certamente, inesquecível, vai passar os próximos seis meses em Sevilha, ao
abrigo do programa Erasmus.
Seis meses podem parecer pouco tempo quando os colocamos
numa perspetiva racional. afinal, Sevilha não fica assim tão longe. Vivemos
numa época em que uma chamada de vídeo encurta distâncias e em que uma viagem
de carro de 4 horas pode-nos levar rapidamente ao outro lado da Península. Mas,
quando alguém que tão próximo, que sempre viveu connosco deixa de fazer parte
do nosso quotidiano, a distância mede-se de outra forma. Mede-se nas pequenas
rotinas que desaparecem, nas conversas espontâneas, nas refeições partilhadas,
nos bons-dias e nos até-logo. E é aí que percebemos que seis meses podem
parecer uma eternidade.
Hoje fui levá-la ao autocarro, no Parque das Nações.
Acompanhei-a naquele momento que, sendo aparentemente simples, carregava uma
enorme carga emocional, a despedida, as malas, os últimos abraços, as últimas
recomendações, como se algumas palavras pudessem proteger ainda mais quem
parte.
No caminho de regresso a casa, confesso que não consegui
esconder a emoção, chorei um bocadinho, mas recompus-me, não podia chegar a
casa assim. Talvez porque, naquele momento, a realidade se tornou mais concreta,
a minha filha ia iniciar uma nova etapa da sua vida e, durante algum tempo,
deixaria de estar connosco diariamente.
E é curioso como a vida dos filhos nos coloca perante este
paradoxo tão bonito e tão difícil, queremos que cresçam, que ganhem asas, que
sejam independentes, confiantes e capazes de conquistar o seu próprio caminho,
mas quando chega o momento de os ver partir, mesmo sabendo que é exatamente
isso que desejámos para eles, o coração de pai parece nunca estar completamente
preparado.
A Teresinha vai para uma cidade extraordinária. Sevilha, com
o seu encanto natural, a sua luz, a sua história, as suas ruas cheias de vida e
aquele ambiente tipicamente andaluz que conquista quem por lá passa. Uma cidade
bonita, intensa e acolhedora, que certamente lhe proporcionará experiências que
ficarão para sempre na sua memória.
Vai estudar na Universidade Loyola, uma instituição jesuíta
de grande prestígio e reconhecida no meio académico, onde naturalmente,
esperamos que esta experiência seja uma importante valorização do seu percurso
académico, mas desejamos que seja muito mais do que isso.
Esperamos que estes seis meses sejam também um tempo de
descoberta, de crescimento pessoal e de aprendizagem sobre o mundo e sobre si
própria. Que conheça pessoas diferentes, culturas diferentes, formas diferentes
de pensar, que viaje, que se surpreenda, que saia da sua zona de conforto e que
aprenda a resolver, por si mesma, os pequenos e grandes desafios que a vida lhe
colocar.
Porque o Erasmus não se faz apenas nas salas de aula, faz-se
nas conversas até tarde, nas amizades improváveis, nas ruas desconhecidas que
um dia passam a ser familiares, nas saudades de casa e na descoberta de que
somos capazes de muito mais do que imaginávamos.
Embora a Teresinha seja uma jovem muito independente, e isso
tranquiliza-nos, sabemos que não será exatamente a mesma coisa. Ela vai
partilhar apartamento com uma amiga, numa zona castiça e típica de Sevilha, e
certamente construirá por lá uma nova rotina, uma pequena casa longe de casa.
E nós teremos de aprender também, com mais esta saída. Já saíram
o Diogo e a Marta.
Aprender a lidar com a cadeira vazia à mesa, com o quarto
mais silencioso, com a ausência de uma presença que sempre tomámos como
garantida. Teremos de nos habituar à ideia de que os filhos crescem e que, um
dia, começam a construir o seu mundo para além das paredes da nossa casa.
Mas, no meio desta saudade que já se instalou, há também um
sentimento bonito de admiração e de serenidade.
É impossível não olhar para a mulher em que a Teresinha se
está a transformar e sentir uma enorme ternura, pela coragem com que abraça
novos desafios, pela independência pessoal e pela naturalidade com que se
atreve a sair da sua zona de conforto. Crescer é também isto, ganhar asas,
descobrir novos caminhos e partir à procura daquilo que a vida ainda tem para
nos ensinar.
É talvez uma das maiores emoções de quem é pai seja
precisamente assistir, mesmo de coração apertado, a esse maravilhoso processo
de transformação.
Mas acredito que gostar também é isto, saber abrir as mãos
quando o coração gostaria de apertar ainda mais forte, dar liberdade, mesmo
quando a saudade já aperta, ficar feliz pelo voo de quem criámos, mesmo quando
sentimos o silêncio que fica depois da partida.
Sevilha recebe hoje a nossa Teresinha.
E nós, aqui em casa, ficamos com um misto de saudade,
orgulho, emoção e esperança. Esperança de que estes seis meses sejam felizes,
seguros, intensos e inesquecíveis e que ela aproveite cada momento, que cresça,
que aprenda e que regresse ainda mais rica por dentro, não apenas pelos
conhecimentos académicos que certamente adquirirá, mas pelas experiências
humanas que levará consigo para toda a vida. Nós, se Deus quiser, estaremos
sempre aqui a torcer por ela, a acompanhar cada novidade, cada fotografia, cada
história e cada pequena conquista.
Porque, no fundo, a distância nunca diminui verdadeiramente
aquilo que nos une.
Boa viagem, minha querida Teresinha, que Sevilha te receba
de braços abertos e que a vida te ofereça, nestes próximos seis meses, memórias
que guardarás para sempre.
Nós ficamos por cá.
Com saudades, sim.
Mas, acima de tudo, com o coração cheio. ❤️
































